segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Amor de renúncia

Sempre que penso no amor mais puro, sincero e presente, penso no amor de mãe.
A típica frase "pai não sente como mãe" sempre pareceu algo muito real, mas que me remetia a uma subestimação do amor do pai.
Depois de tempos levando essa "verdade", passei a compreender de forma diferente essas questões, e a compreender o amor de pai talvez de uma forma mais justa.
É claro que nossos laços com as mães são extremamente fortes, uma vez que desde que somos gerados estabelecemos uma conexão de 24h por dia durante nove meses, dentro do confortável ventre que nos acolhe. Também durante todo o desenvolvimento social humano, a mulher sempre teve o papel de cuidadora, permanecendo em casa e estabelecendo essa relação mais direta com a prole. Com isso, a representação do amor idealizada, que supre as carências fica diretamente relacionada à mãe. 
Claro, a mãe é realmente isso, mas ao pensar na família como um todo, e ao refletir sobre como o amor de pai se manifesta, coloco em xeque aquela visão de "o pai não sentir como a mãe" ser o se importar menos ou algo do tipo.
Vejo agora que o amor de pai está diretamente relacionado com um amor que defino como "amor de renúncia". O pai, desde a concepção de um filho entrega o seu melhor, para que o melhor seja feito com sua cria por outra pessoa. Permite que um outro ser cuide de seu maior bem, escolhe deixar a mãe a cargo de estar presente, para sair e prover o que for necessário. Um pai renuncia estar com seus filhos, não por não amar e desejar estar lá, mas por saber ser forte para suportar toda a distância. O amor do pai é presente por existir, mas nem sempre está claramente manifestado.
Muitas vezes essa distância faz com que o pai não compreenda como estabelecer um laço de amor com seu filho, o que talvez venha da própria relação não construída com o pai, o que pode se desenrolar das mais diversas formas. Pais que brigam entre si pois não conseguem compreender a forma de cada um pensar e educar, pais que se afastam ainda mais dos filhos, pais que batem em seus filhos atestando fazer por amor. É tanto medo e tristeza pela incompreensão de  seus sentimentos, que muitas vezes se enfurecem ou se calam, e para evitar que mais dificuldades se manifestem, mais uma vez renunciam viver toda a beleza de um laço tão sagrado. 
Acredito que na verdade, o coração de um pai é um coração que sente tanto quanto o de uma mãe, mas com uma desvantagem na construção de suas relações, com uma ferida desde o início aberta, por toda renúncia feita. Por isso, acaba aprendendo a se proteger e/ou fugir com conversas curtas, despedidas rápidas e decisões mais assertivas. A conversa costuma ser um pouco mais rudimentar e as manifestações menos claras, mas não deixa de ser um amor tão grande e presente - existente - como o de uma mãe. 
Agora acho mais justo pensar que o amor de renúncia é um amor que muitas vezes sangra, e é um amor muito nobre e verdadeiro. Nesse dia dos pais, desejo que possamos cada dia mais compreender e ajudar nossos pais a estabelecer essa conversa, e a estabelecer de forma alegre essa união, de um amor que apesar de nem sempre manifestado, é sempre presente.

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