segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Bem te vi

Olhei para o lado
Para abrir a porta
Por acaso
Te vi na vitrine
E você
Me viu ao carro
Simultâneos
Olhos olhamos
Sem jeito sorrisos
Fez voltar a escrever
Abri a porta
Cantarolamos

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Filha de Leão

O choro veio doce
Pois imperou consciente
Da missão que lhe foi dada
De amor e de serviço em sua jornada

Acendeu a fogueira
Fez cinzas a madeira
liberou o espírito em fagulha
do corpo da floresta bento pela lua

Dançou em chamas
Energia translucida
das lágrimas do coração
Reconheceu-se fogo, menina, leão

Sacudiu juba labareda
Tirou o pó de serragem
para sentir o sol nascer
em ritual de passagem

Ofertou teimosia e orgulho
Resplandeceu empatia e lealdade
Ao astro rei deu gratidão
Renascendo filha de leão

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Completude

Ele era das palavras, mas mais cético que São Tomé.
Ela era das contas, mas metida a esotérica de João Bidu.
Toda ciência para ele eram provas, que não entendia, mas acreditava.
Toda poesia para ela era natural, era visceral, e era ciência tal qual.
Juntaram-se para conversar e deu-se assim:
Onde ele via mágica, ela via números.
Onde ele via ciência, ela via poesia.
Onde ele via x, ela via y.
Onde ele via rima, ela via prosa.
Mas no fim concordavam, era tudo a mesma coisa. Metáforas de uma dualidade inexistente, mas impossível de inexistir.
E nessa dualidade estranha, eram a si mesmos e um ao outro. Rimavam-se em estrofes de matemática, e somavam-se em operações de poesia.
Não existiam metades, apesar de o serem. Eram parte de um todo tão completo de si sós, que apenas se completavam ainda mais - se é que existe disso.

domingo, 23 de agosto de 2015

Chapeuzinho vermelho

Sentou no sofá vestindo seu pijama. Poderia estar sem nada, estava sozinha em casa mesmo. Sem família ou amigos, preparou um chá, preparou dois chás e acendeu um incenso.
Sentiu o gosto da erva, sentiu o calor do líquido. Sentiu os sabores e sensações se misturando.
Então tocou seus braços e barriga com delicadeza.
Sua pele arrepiou, como se uma suave corrente elétrica passeasse por ela.
Depois molhou os dedos no chá e provou na língua.
Pegou a xícara, era bom sentir o calor em seu ventre. Instintivamente caminhou a mesma pelo resto do corpo, tocou os seios e anseios, queria se sentir mulher. Desceu e se acariciou sem se tocar, o calor dos chás a fez tremer.
Nunca havia sentido tão delicado prazer. Nunca havia sentido prazer algum.
Começou a chover lá fora. Não soube ao certo o que fazer, queria sair correndo sob ela no mesmo instante, mas deveria?
Hesitou. Hesitou mais um pouco, e por fim pensou que se não fosse naquele momento a chuva passaria e depois se ressentiria.
Correu para a chuva, brincou com a água se molhando de corpo e alma.
Era tanta liberdade que mal sabia o que fazer com ela, precisava se sentir viva!
Começou a correr sem pensar... Nem lembrou que não era "normal" uma garota correndo de pijama na chuva. Parou de repente, mas não porque quis. Um baque, alguém a segurou.
- Chapeuzinho, porque corres tão rápido pela floresta na chuva?
- Chapeuzinho? Estranhou ela, sem perceber quem a segurava.
- Ora, não é você quem vive com capa com gorro vermelho? Chapeuzinho vermelho?
Virou então para olhar, quem a segurava tinha pelos pelo corpo todo, no rosto viu a face de um lobo. Quis gritar, mas sua voz não saiu. Conseguiu dizer rouca:
- Eu, chapeuzinho vermelho? Lobo mau?!
- Sim, chapeuzinho. Lembra de mim? - apertando
Não percebeu em que momento tudo passou a fazer sentido, nem como. Apenas sentiu conforto no abraço do lobo vindo por trás. Perguntou:
- Por que todos esses pelos lobo mau?
- Para te esquentar mais, respondeu.
- E este focinho lobo?
- Para sentir o cheiro de seu corpo. - Roçando os pelos do rosto em sua nuca.
Arrepiou, sentiu como frio o que era desejo.
Tudo parecia ter velocidade de uma música de baião. Mas ela não sentia a urgência da cadência rápida. Conduziu no mesmo ritmo.
- Lobo, se sou chapeuzinho vermelho, onde está minha capa?
Percebeu o lobo querendo ser solícito, percebeu nele uma ovelha. Apesar de gostar do lobo, percebeu também que aquele não era seu mundo, o lobo não era bom e não pertencia a ela.
Aproveitou que ele a soltou para procurar a capa, e saiu correndo mais uma vez na chuva. Parou e respirou fundo, olhou para trás para ter certeza que ele não a seguira. E por mais que o quisesse rever, sabia: nunca viria, como nunca veio, e era melhor assim.
Sentindo os pingos frios foi para casa tomar um banho quente. Pensou em tudo o que acontecera naqueles últimos instantes.
Todos os sabores e prazeres, todos os desamores, todas suas fantasias de menina, todas suas fantasias de mulher. Como aquilo acontecera?
Sentiu nojo.
Deitando em transe de cansaço tomou seu chá frio e com ele esfriou.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A bença

Teus olhos já não mentem mais
E tua boca cala por não precisar afirmar
O que os olhos contam do coração
Irmão, voa em paz com tuas folhas
De papel, de árvores, e até de escuridão

segunda-feira, 10 de agosto de 2015