domingo, 23 de agosto de 2015

Chapeuzinho vermelho

Sentou no sofá vestindo seu pijama. Poderia estar sem nada, estava sozinha em casa mesmo. Sem família ou amigos, preparou um chá, preparou dois chás e acendeu um incenso.
Sentiu o gosto da erva, sentiu o calor do líquido. Sentiu os sabores e sensações se misturando.
Então tocou seus braços e barriga com delicadeza.
Sua pele arrepiou, como se uma suave corrente elétrica passeasse por ela.
Depois molhou os dedos no chá e provou na língua.
Pegou a xícara, era bom sentir o calor em seu ventre. Instintivamente caminhou a mesma pelo resto do corpo, tocou os seios e anseios, queria se sentir mulher. Desceu e se acariciou sem se tocar, o calor dos chás a fez tremer.
Nunca havia sentido tão delicado prazer. Nunca havia sentido prazer algum.
Começou a chover lá fora. Não soube ao certo o que fazer, queria sair correndo sob ela no mesmo instante, mas deveria?
Hesitou. Hesitou mais um pouco, e por fim pensou que se não fosse naquele momento a chuva passaria e depois se ressentiria.
Correu para a chuva, brincou com a água se molhando de corpo e alma.
Era tanta liberdade que mal sabia o que fazer com ela, precisava se sentir viva!
Começou a correr sem pensar... Nem lembrou que não era "normal" uma garota correndo de pijama na chuva. Parou de repente, mas não porque quis. Um baque, alguém a segurou.
- Chapeuzinho, porque corres tão rápido pela floresta na chuva?
- Chapeuzinho? Estranhou ela, sem perceber quem a segurava.
- Ora, não é você quem vive com capa com gorro vermelho? Chapeuzinho vermelho?
Virou então para olhar, quem a segurava tinha pelos pelo corpo todo, no rosto viu a face de um lobo. Quis gritar, mas sua voz não saiu. Conseguiu dizer rouca:
- Eu, chapeuzinho vermelho? Lobo mau?!
- Sim, chapeuzinho. Lembra de mim? - apertando
Não percebeu em que momento tudo passou a fazer sentido, nem como. Apenas sentiu conforto no abraço do lobo vindo por trás. Perguntou:
- Por que todos esses pelos lobo mau?
- Para te esquentar mais, respondeu.
- E este focinho lobo?
- Para sentir o cheiro de seu corpo. - Roçando os pelos do rosto em sua nuca.
Arrepiou, sentiu como frio o que era desejo.
Tudo parecia ter velocidade de uma música de baião. Mas ela não sentia a urgência da cadência rápida. Conduziu no mesmo ritmo.
- Lobo, se sou chapeuzinho vermelho, onde está minha capa?
Percebeu o lobo querendo ser solícito, percebeu nele uma ovelha. Apesar de gostar do lobo, percebeu também que aquele não era seu mundo, o lobo não era bom e não pertencia a ela.
Aproveitou que ele a soltou para procurar a capa, e saiu correndo mais uma vez na chuva. Parou e respirou fundo, olhou para trás para ter certeza que ele não a seguira. E por mais que o quisesse rever, sabia: nunca viria, como nunca veio, e era melhor assim.
Sentindo os pingos frios foi para casa tomar um banho quente. Pensou em tudo o que acontecera naqueles últimos instantes.
Todos os sabores e prazeres, todos os desamores, todas suas fantasias de menina, todas suas fantasias de mulher. Como aquilo acontecera?
Sentiu nojo.
Deitando em transe de cansaço tomou seu chá frio e com ele esfriou.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A bença

Teus olhos já não mentem mais
E tua boca cala por não precisar afirmar
O que os olhos contam do coração
Irmão, voa em paz com tuas folhas
De papel, de árvores, e até de escuridão

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Verbete

Eu como palavra: síntese
Conjunto de ações ao longo do tempo
Sou resumo de mim mesma
O resultado do vivido
No que sou e estou
Tudo se diz no agora
Em que cada letra me altero
A cada segundo faço novo eu
E tudo muda mais uma vez
Mas só me resumo a mim
Como tudo e como nada
Que deixei de ser e estar
Sintetizo-me

sábado, 18 de abril de 2015

Hibernação

Essa noite sonhei com você. Estávamos deitados na cama rindo, uma diversão leve, como daquela última vez que nos encontramos, nos acertamos e deitamos na rede para conversar sem amarras. Já não existia mais o medo de conversarmos, e você até me pediu para que falasse com meu irmão sobre as diferenças que os separavam para podermos conviver tranquilamente. E eu, só pude aceitar. Acordei.
Depois de meses sem nos vermos nem nos falarmos, você veio em sonho me reconquistar. Como sempre que te vejo, mesmo em sonho você tem o seu appeal, mesmo quando estou decidida a não cair em seus encantos, sou reconquistada.
E me pergunto o que você sente. Também me encontra em sonhos? E se pergunta por que nunca mais nos vimos? Será que fizemos um encontro por inception para contarmos nossos desejos? 
Então bate uma vontade de mandar mensagem, contar que sonhei com você, perguntar se está tudo bem e se a rede está no mesmo lugar. Falar que sinto falta do seu sorriso de lobo, seu silêncio de oração, suas ideias bobas ou sérias que casam bem com as minhas.
Mas ao invés, volto a dormir, babo no travesseiro como se nada tivesse acontecido em minha mente, fingindo nada ter acontecido entre nós, como da última vez que nos vimos por mero acaso. Nunca seremos mais do que isso, então hiberno esse sonho mais uma vez.

domingo, 29 de março de 2015

Amor contido

E o que te impede?
Já não me importa
sei que vai além
percebo quando beijo tua nuca
como dedo tensionando água,
seu arrepio é quando você transborda
e o que impede já não te importa
Fora do copo, então, você me ama...
Mesmo num segundo de gota
eterno em meu imaginário
De gota em gota umedeço o coração
esperando seu derramar,
ansiosa por deixar o conta gotas,
e sermos amor corrente