sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Anjo encarnado

Quem tu és, anjo?
Quando vive em meio a mais terrena das terras?
Que te trouxe ao mundo?
Que te gerou no ventre de barro?
Quem tu és, anjo?
Ao se deparar com a boemia?
Ao viver como eles?
Ao interminável e entorpecente bacanal?
Quem tu és, anjo?
Ao perceber que faz parte terra?
E que acima do solo tudo é céu?
Que o véu cobre as mazelas em meio a grinalda?
Quem és tu, anjo?
Sabes de onde vens?
Sabes por que vens?
Não se confundes nas odes?
Odes de amor, de terror, de dor?
Confundes tua missão?
Teus sins e teus nãos?
Sabes donde pisas?
Estás seguro agora?
Quem és tu, anjo?
Ao se deparar com teus demônios?
Permaneces anjo, mesmo em sombra de tuas asas?
Mesmo em porre de realidade?
Mesmo em choque do ser?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A forca

Seu pessimismo me enoja
Seu coitadismo me consome
Por que crê que a vida não foi justa com você?
Se você nunca se permitiu viver?
Desdenha das próprias expectativas não cumpridas
Morre de falta de amor próprio
Diz que sempre nunca será o que jamais quis ser
Pois se quisesse, teria sido e pronto!
Não me venha com desculpas
Poderia ser o outro, como foi o que é
Seu fatalismo fora de si me estorva
e não justifica coisa alguma
Para de reclamar a vida que não teve
Pois só não teve porque não a quis de verdade
O que parou foi você, e não o tempo
Cala a boca desse pessimismo
Cala a boca desse coitadismo
Cala a boca desse fatalismo
Cala a boca, se vive o que não quer
Pois sofre da injustiça de próprio punho que cunhou sua lápide
Com os dizeres nefastos de uma vida medíocre:
"Aguenta na morte eterna
O sabor amargo de viver consigo mesmo
No apertar do nó de forca, que sua culpa amarrou"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Caminhos

A vida, meu amigo
Insiste-me em dizer
Que meus caminhos a seguir
Nunca levarão à você

Qualquer balela dessa vida
Preciso-lhe menos que comida
Então sossego calos do dedão
Caminhando, caminhos, caminhão

Não é porque quisesse
Nem por muito fizesse
Mas disse que um dia traria
Calçados novos da sapataria

Queria-lhe dizer
Que bucho cheio já ei de ter
Queria mesmo era sentir calçados
Chinelos velhos para meus pés cansados

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Winter Flame

And what do you have to lose, winter flame?
If you have nothing... What are you afraid of?
Afraid of who, winter flame?
Your fear of loneliness turns you needy
As the way you feared
And what do you have to lose, got to lose?
What do you got to lose, need to lose?
Does it look as bad as it feels?
Or does it feel as bad as it looks?
And what makes you fear, winter flame?
Cold won't turn you off
Cold won't burn you off
You just have to be like a flame at the winter
Lonely and complete as a winter flame
Unshaped hot rebelion burning within definition of cold and fear

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Bem te vi

Olhei para o lado
Para abrir a porta
Por acaso
Te vi na vitrine
E você
Me viu ao carro
Simultâneos
Olhos olhamos
Sem jeito sorrisos
Fez voltar a escrever
Abri a porta
Cantarolamos

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Filha de Leão

O choro veio doce
Pois imperou consciente
Da missão que lhe foi dada
De amor e de serviço em sua jornada

Acendeu a fogueira
Fez cinzas a madeira
liberou o espírito em fagulha
do corpo da floresta bento pela lua

Dançou em chamas
Energia translucida
das lágrimas do coração
Reconheceu-se fogo, menina, leão

Sacudiu juba labareda
Tirou o pó de serragem
para sentir o sol nascer
em ritual de passagem

Ofertou teimosia e orgulho
Resplandeceu empatia e lealdade
Ao astro rei deu gratidão
Renascendo filha de leão

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Completude

Ele era das palavras, mas mais cético que São Tomé.
Ela era das contas, mas metida a esotérica de João Bidu.
Toda ciência para ele eram provas, que não entendia, mas acreditava.
Toda poesia para ela era natural, era visceral, e era ciência tal qual.
Juntaram-se para conversar e deu-se assim:
Onde ele via mágica, ela via números.
Onde ele via ciência, ela via poesia.
Onde ele via x, ela via y.
Onde ele via rima, ela via prosa.
Mas no fim concordavam, era tudo a mesma coisa. Metáforas de uma dualidade inexistente, mas impossível de inexistir.
E nessa dualidade estranha, eram a si mesmos e um ao outro. Rimavam-se em estrofes de matemática, e somavam-se em operações de poesia.
Não existiam metades, apesar de o serem. Eram parte de um todo tão completo de si sós, que apenas se completavam ainda mais - se é que existe disso.